"A Esposa Bórgia" e "Resistência" retratam o sofrimento de pessoas oprimidas ante à arrogância e sede de poder desmedidos de homens em contextos muito diversos.
A Esposa Bórgia, de nome auto-explicativo, discorre sobre a traição, a matança e a crueldade brutas que fizeram parte da Casa dos Bórgia até que Rodrigo Bórgia, vulgo Papa Alexandre VI foi morto, não restando mais meios de seu filho, César, difundir ainda mais a bestialidade violadora de sua natureza. Não há necessidade de comentar em minúcia o comportamente lascivo de Alexandre, bem como a relação incestuosa mantida com sua filha Lucrécia, ou as muitas mortes realizadas como lhe aprouve, visto a horripilante consistência desses fatos. Sim, fatos. Datados, historiados e autenticados, o que me dá náuseas. Entrementes, há a redundância da apresentação dos filhos ( FILHOS legítimos e assumidos ) do papa, constituídos, além dos dois já citados, por Giovanni e Jofre, os reconhecidos filhos com Vanozza, além de outros tantos que nunca receberam o sobrenome papal ( e, claro está, maldito.).
"Resistência" é um livro-diário escrito pela francesa Àgnes Humbert, prisioneira política do Terceiro Reich e do terror inerente a ele.
Àgnes sobreviveu às prisões e campos de trabalhos forçados, em despeito às doenças, falta de comida e dignidade, condições desumanas de vida e trabalho e maus-tratos dos SS. Sobreviveu à surrealidade da barbárie para contar a sua e tantas outras histórias que conheceu e viveu em seu encarceramento.
As duas obras me levaram a um estado entorpecido de um choque que já conhecera e à uma reflexão que já havia feito.
Conheci, novamente, a revolta. A repulsa, o nojo. Não dos piolhos que acometiam às prisioneiras, ou das cortesãs sifilíticas que serviam ao Santo Padre. Nojo dos homens bem vestidos, alimentados e seguros que não só permitiram como foram a raiz de toda atrocidade e desprezo à vida que conhecemos só de longe, através da leitura. EU nunca tive uma queimadura de viscose; nunca fui levada à quase cegueira pelo ácido das máquinas de produção da seda sintética, sem ingerir uma gota de água ou leite por 8 ou 10 horas ininterruptas, sofrendo com a queimação na garganta, nos olhos e na cabeça. Não tive de latir como a um cachorro, acorrentada em quatro apoios, para receber comida. E não consigo prosseguir nisso, pensando na crueldade inexorável, no equívoco recorrente da superioridade. "Ah! Desgraça inerente à raça!" É exatamente o que vimos e vemos, em meio ao caos e à degradação; à impotência e à derrota.
Então, no fundo, uma parte de mim deseja, de forma veemente, que aquelas histórias sobre Céu e Inferno sejam verdadeiras! Ou qualquer de seus equivalentes que separam os punidos dos expiados.
Uma parte minha, em fogo, deseja que pessoas como Rodrigo Bórgia, Adolf Hitler e tantas outras estejam, neste EXATO instante, escaldando no 7º Círculo do Inferno. Ou, ainda melhor, na Garganta de Satanás, fria como a pedra que, em vida, eles carregaram no lugar da consciência.
Sei que não devo buscar e recorrer à essa fraqueza e dependência de uma justiça infalível, me escorar, apoiar em uma verdade que não acredito e que chego, às vezes, a desprezar. Mas desejo isso a eles, sim, com um êxtase de pura e maligna satisfação interior.
Por macular todo tipo de coisas belas que existem entre as relações humanas.
Por violar o que é a humanidade em sua essência.